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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

25
Fev16

A primeira vez #5

Maria das Palavras

#A primeira vez que menti (que me lembre).

E ai do primeiro que venha para aqui nos comentários dizer que nunca mente que eu invoco já a palavra "balelas". Talvez seja triste dizê-lo, mas a nossa sociedade desmoronava sem algumas little white lies. Podem recordar a minha reflexão sobre o assunto e o filme que a inspirou (sobre um mundo em que ninguém mente e de repente há um maluco - o Ricky Gervais - que consegue fazê-lo) aqui. O filme é delicioso, cómico e faz-nos pensar. 

Pois bem, corria a década de 90 e eu estava acabadinha de entrar na catequese. No meu tempo, e na minha terra, não havia cá aquela coisa de liberdade religiosa para a criança ou grandes discussões filosóficas acerca do bem ou mal que faz à criança - toda a gente ia à catequese (os meus amiguinhos) e portanto eu também. Não me toldou a mente de maneira nenhuma (aliás, nunca acreditei eu deuses, messias, água que se faz vinho e afins), portanto como vêem não me tirou a liberdade de escolher o meu caminho na fé (ou a falta dela), mas aprendi muito acerca da nossa cultura e ouvi bonitas estórias que pelo menos servem para passar valores morais.

Ora não me lembro em que ano teria sido, mas julgo que foi logo no primeiro (primeiro ano de catequese - coincide com o primeiro ano escolar) que nos empurraram para uma confissão. A primeira confissão. Como não sabíamos escrever e pelos vistos alguém decidiu que falar não era o ideal (talvez fosse na altura que nos caem os dentes e os padres não quisessem levar com spray de cuspo) pediram a todos os meninos que fizessem um desenho que representasse o seu pecado. Ora estar a escolher um pecado que combine as propriedades de ser confessável e ao mesmo tempo conseguir desenhar-se é complicado. Por exemplo, eu poderia pensar "fui mal educada para os meus pais". E como é que esta jovem (des)Picassa ia representar isso em desenho? Por acaso sou a Maria das Imagens? Não. Sou a Maria das Palavras.

Portanto eis o que fiz na minha primeira confissão: menti.

Desenhei-me a atirar uma pedra a outro menino, que era infinitamente mais fácil de representar em folha do que tudo o que me ocorria, e contei ao padre sobre isso. Sem qualquer pudor, até porque continuava sem certezas da legitimidade daquela pessoa de vestido branco para andar a ouvir segredos profundos. 

Devo ter sabido que era errado, porque me lembro bem disto. Se me arrependo? Ora bem, as Avé-Marias e Pais-Nossos que rezei pelas pedras que não atirei devem ter chegado para o pecado que realmente cometi. Portanto diria que paguei a minha dívida à sociedade...

 

Agora contem  vocês, vá.

 

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